sábado, 14 de novembro de 2015

não sei se te recomendo descansar em paz, óh rio!


o rio era doce.
adoçava a vida da gente!
os ribeirinhos eram felizes e não sabiam(?).
não era necessário vidente,
nem mesmo cartomante ou quiromante:
a tragédia era iminente.

o rio era cheio de peixes
e as flores em volta estavam brilhando.
uma correnteza estranha se aproximou.
não não não...não era coisa da natureza.
se ainda fosse uma pororoca...
mas que nada!
lama, lixos, árvores, pesticidas e ferro!
tudo segue alastrando uma tragédia por quilômetros!
toda vida é sepultada.
os peixes lutam pela vida
e, num desespero,
no instinto pela vida,
sobem as montanhas e...
morrem do mesmo jeito.

os pescadores, outrora predadores,
querem salvar toda fauna doce
numa arca de noé.
nesse momento é preciso mais que fé.

a presidente passeia de helicóptero
e promete aplicar uma pesada multa,
mas se esquece que não há dinheiro
no mundo que pague os erros
de uma administração pública falida.
não há dinheiro no mundo que traga de volta a vida
e a doçura do rio.
não há dinheiro no mundo que devolva pro colo da mãe
o menino que morreu pedindo:
__Jesus me salva! Jesus me salva!

a notícia é triste:
o rio doce morreu.
nem dez, nem vinte, nem cem anos.
a recuperação não será a mesma coisa.
espécies endêmicas podem se extinguir.
a lama dissipou tudo em volta.
a doença chegou e foi taxativa:
nada mais de vida,
agora
é
natureza
morta.

os vilarejos e cidades que dependiam da água
também correm risco.
não se vive sem água.
serão os homens também peixes fora d´agua?
não sei se te recomendo descansar em paz, óh rio!
sei que a natureza faz uma força tremenda
e muitas vezes perfura paredes de concreto maciço,
ressurge no meio do nada,
brilha de esperança numa pequenina flor.

descansar em paz sei que não vai.
desejo-te, óh rio, com o coração cheio de dor
e os olhos cheio de lágrimas,
que tenha misericórdia dos homens,
para quem cedestes suas águas
e de quem recebestes esgoto,
de quem mata a fome
e gratidão tens pouco.

o rio doce morreu,
com ele,
morre
também
eu,
de vergonha
por ser
homem.




Um comentário:

Rosenilde disse...

Meu primo, tão consciente, tão sensível ao sofrimento. Voz que clama no deserto e repercute às nações, assim são as suas palavras.