quarta-feira, 11 de junho de 2014

que o dia 11 de junho volte a ser, apenas, véspera de um dia 12.


uma dor esquisita começa a bater no peito:
é a dor da saudade.
minha amada mãe natureza celebra seu primeiro ano de vida lá no céu.
era por volta de 07h30 da manhã daquele 11 de junho de 2013 quando ela se foi.
naquele dia acordei com um sentimento de despedida.
quis faltar no trabalho.
atrasei mas decidi ir.
já tinha algumas faltas por conta das idas e vindas.
fiquei alguns minutos e logo me ligaram do hospital:
__vem aqui, traga documentos...não deu...força...

um ano se foi sem ela aqui.
foi um ano muito, mas muito duro.
que sensação mais estranha essa...
tudo me faz lembrá-la, desde o simples telefonema
me avisando do pão de queijo na mesa
ou algumas horas nas filas dos hospitais.
nunca mais fizemos pão de queijo em casa.
o polvilho?
azedou.

a janela entreaberta com os galhos da árvore favorita querendo entrar,
a cebolinha plantado no alto,
a rede de deitar desgastada,
duas cadeiras de varanda,
uma vazia.
cada gaveta da cômoda que era repleta de papeis de todo lado:
casa, filhos, receitas médicas, exames, cartinhas, fotos,
santinhos, escritos, rabiscos, flores desenhadas sempre do mesmo jeitinho,
caça-palavras, cremes nunca usados, algumas bijuterias,
recortes, bugigangas, mais santinhos, mais papeis.

ai...a flor preferida no altarzinho pra Nossa Senhora,
a velinha acesa, o livrinho aberto no terço,
os óculos meio torto...era fiel nas rezas.

bom, para meu conforto,
ela está lá, no céu!
mas não adianta:
queria ela aqui.
bem do meu lado.
beijar-lhe-ia a face,
fazer-lhe-ia alguns gostos,
levava pra passear.
adorava passear!
entrava no carro e dizia que era a maria gasolina!
cantarolava sempre qualquer coisa
e nos enchia de parlendas.

me ensinou a ter medo da temível bastiola
e também me deu coragem.
conheço o saci,
o lobisomem e
curupira.
bastiola??
ninguém sabe o que é
e nem de que confins da bahia veio.
era exclusividade da minha amada.

enchia nos de musicalidade
e travava nossa cabeça com a língua do pê.
a língua do pê....
era um caso à parte.
quando queria esconder algo, principalmente,
de visitantes indesejáveis,
disparava o pê.
ríamos de morrê
do a,
do b,
do c!

adorava vê-la costurando quando eu era mulequinho:
__mãe, faz uma roupa nova pra mim!
e ela mandava ver num shortinho apertado,
dali corria pro campinho.

saudade?
ninguém conhece assim.
como nos inflama,
como nos faz minar os olhos...
é incrível como essa dor da ausência mexe com a gente.
tenho minha fé na vida eterna,
nas doçuras do céu,
na bondade tamanha de Deus,
mas queria mesmo era minha mãe natureza aqui.
sei lá...queria mais tempo com ela.
posso querer isso?
posso!
pode sim.

tenho paz.
aproveitei ao máximo minha amada
e com ela me formei pra vida.
cada ensinamento me levava sempre
à servir, amar e respeitar o próximo.
silenciosa e paciente,
exemplo puríssimo de mãe,
de esposa,
de filha.

mas queria minha amada aqui,
esse é o desejo que arde no coração
e não posso querer me enganar.

me esforço a cada dia
nos passos lentos da compreensão
e nos caminhos tortos de Deus.
sigo querendo guardar a lembrança
e honrar toda sabedoria materna,
minha herança não foi dinheiro e nem posses,
não foram bens móveis ou imóveis,
não...
ela não deixou nada disso,
mas deixou mais que tudo isso junto,
e é o que guardo no coração,
é parte da alma,
é o tesouro que muitos caçam mas que,
num dado momento,
se iludem com moedas de ouro
e se perdem para sempre.
o tesouro está escondido no céu.
como abrir buracos no céu?
abrem-se na terra,
mas no céu não!

esse ano passou feito um foguete.
destino?
o infinito.
o céu é bonito,
é fresco,
é o infinito.

te agradeço mãezinha natureza
pelas visitas em meu descanso,
pelos exemplos que me levam,
pelo amor que transbordou.
permanece a saudade horrenda.
que passe! e um dia e fique amena.
saudades minha mãe natureza...
cuida de mim,
cuida de nóis tudo!
mil beijos e saiba que te amo!
__eu sei...eu sei...vou ficar bem...quero a união entre vocês...
vou ficar bem...e sair daqui...voltar pra minha casa...
deitar na minha redinha e ficar quietinha ao lado do seu pai...
não vou fazer estravagança...fiquem em paz...quero ir pra casa...só isso...
fiquem em paz...

como foram doloridos aqueles últimos dias...
cada gesto cansado, cada sorriso preso entre aparelhos,
cada olhar de dor e esperança...
cada palavra falada,
sussurrada, silenciada...
meu Deus....como foram doloridos aqueles dias que,
lá fora, seguiam coloridos.

a vida segue.
segue a vida.

às vezes a sinto pertinho,
olhando para mim.
obrigado Senhor pela história de amor que vivi ao lado dessa mulher guerreira,
linda, bondosa e sábia!
obrigado Senhor pela vida Benvinda!

te agradeço muito Senhor,
mas me perdoe:
queria ver as novas rugas de expressão,
queria ver alguns fios de cabelos brancos,
queria sentir o cheirinho de mãe mais um pouco.
queria mais um abração! com esse amor sou louco!

vai saudade!!! some!!!
vem esperança!!!
que o dia 11 de junho volte a ser, apenas, véspera do 12!
que nos sobrem muitas flores!
que passemos sobre essas dores!
que essa família reflita seus dons,
dulcíssimos dons de mãe natureza!





Um comentário:

JARNETO Rezende disse...

Jefim, meu irmão!

Estou sem palavras! Você expressou tudo de maneira muito poética sobre a mamãe! Parabéns por esse seu dom da palavra! Ela foi e será sempre amada por nós! Eu amei o seu depoimento sincero! Valeu por todos nós, irmãos, que sentimos na pele toda a trajetória de vida dessa nossa guerreira e estendo essa comoção a todas as pessoas que passaram pelo mesmo sofrimento. Até o próprio papai, tadinho, ainda sofre com a ausência da vovó Domiciana, que nem chegamos a conhecer! Ele desabafou. Mas fica aqui a esperança que a nossa mãezinha e todos que já se foram, estejam bem acolhidos na presença de Deus. Por que aqui na Terra, ainda temos que continuar. É o nosso conforto. Grande abraço irmão Jefersom!

Força pra todos nós!

Seu irmão Joaquim.